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Cirurgia de Glaucoma

Foto do escritor: Dra. Alléxya Affonso
Dra. Alléxya Affonso
5 de ago.
9 min de leitura

Atualizado: 10 de ago.

Cirurgia de Glaucoma


Descubra quando a cirurgia é indicada, conheça as técnicas tradicionais e minimamente invasivas (MIGS) e como é a recuperação após o procedimento.


Cirurgia de Glaucoma


Quando a cirurgia é indicada e quais são as opções de tratamento


O que é o glaucoma?


O glaucoma é uma doença crônica que provoca danos progressivos ao nervo óptico, estrutura responsável por transmitir as informações visuais dos olhos para o cérebro. À medida que essas fibras nervosas são lesionadas, ocorre perda gradual do campo visual que, sem tratamento adequado, pode evoluir para cegueira permanente.


Atualmente, o glaucoma é uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo. No entanto, quando diagnosticado precocemente e acompanhado de forma adequada, é possível controlar a doença e preservar a visão na grande maioria dos pacientes.


Existem diferentes tipos de glaucoma, sendo o glaucoma primário de ângulo aberto o mais frequente. Os principais fatores de risco incluem:


  • Idade acima de 40 anos;

  • Histórico familiar de glaucoma;

  • Pressão intraocular elevada;

  • Córneas mais finas;

  • Miopia elevada;

  • Diabetes e doenças cardiovasculares;

  • Hipertensão arterial, que pode contribuir para a progressão da doença em alguns pacientes.


Embora a pressão intraocular elevada seja o principal fator de risco modificável, algumas pessoas desenvolvem glaucoma mesmo com valores considerados normais. Por isso, somente a medida da pressão ocular não é suficiente para excluir a doença.


O glaucoma é uma doença silenciosa


Na maioria dos casos, o glaucoma evolui lentamente e não provoca sintomas nas fases iniciais. A perda da visão ocorre de maneira gradual, geralmente começando pela visão periférica, fazendo com que muitos pacientes não percebam qualquer alteração até que o comprometimento seja importante.


Infelizmente, a visão perdida pelo glaucoma não pode ser recuperada. Dessa forma, o objetivo do tratamento é impedir ou retardar a progressão da doença antes que ocorram danos permanentes ao nervo óptico.


Alguns tipos de glaucoma, entretanto, apresentam evolução rápida e constituem uma emergência oftalmológica. É o caso do:


  • Glaucoma agudo de ângulo fechado;

  • Glaucoma neovascular, frequentemente associado à retinopatia diabética;

  • Glaucoma secundário relacionado às uveítes.


Nessas situações, a elevação da pressão intraocular costuma ocorrer de forma intensa e pode causar sintomas como:


  • Dor ocular intensa;

  • Vermelhidão nos olhos;

  • Visão embaçada;

  • Halos coloridos ao redor das luzes;

  • Sensibilidade à luz (fotofobia);

  • Dor de cabeça;

  • Náuseas e vômitos.


Na presença desses sintomas, a avaliação oftalmológica deve ser realizada imediatamente.


Por que controlar a pressão intraocular?


A pressão intraocular (PIO) é o principal fator responsável pela progressão do glaucoma.

Quanto maior a pressão e maior o tempo de exposição do nervo óptico a essa pressão elevada, maior será o risco de perda das fibras nervosas e da visão.


Além disso, a hipertensão ocular também está associada ao aumento do risco de outras doenças, como a oclusão da veia central da retina.


Por esse motivo, reduzir e manter a pressão intraocular dentro da chamada pressão-alvo é o principal objetivo do tratamento.


Como é feito o tratamento do glaucoma?


O tratamento do glaucoma tem como objetivo reduzir a pressão intraocular para níveis seguros, capazes de evitar ou retardar a progressão da doença.


Nos últimos anos, houve uma importante mudança na forma de tratar o glaucoma. Atualmente, a trabeculoplastia seletiva a laser (SLT, Selective Laser Trabeculoplasty) passou a ser considerada uma das principais opções de tratamento de primeira linha para pacientes com glaucoma primário de ângulo aberto e hipertensão ocular.


Essa mudança foi impulsionada por estudos científicos de alta qualidade, especialmente o LiGHT Trial, que demonstrou que o SLT apresenta eficácia semelhante à dos colírios para reduzir a pressão intraocular, além de diminuir a necessidade de medicamentos e reduzir o risco de procedimentos cirúrgicos ao longo do acompanhamento.


O SLT é realizado em consultório, não requer internação e dura apenas alguns minutos. O procedimento utiliza um laser que atua seletivamente sobre a malha trabecular, estimulando a drenagem natural do humor aquoso e promovendo redução da pressão intraocular sem causar danos significativos às estruturas oculares.


Em muitos pacientes, uma única aplicação pode manter a pressão controlada durante anos, reduzindo ou até eliminando temporariamente a necessidade do uso diário de colírios. Além disso, o procedimento pode ser repetido em casos selecionados.


Apesar da crescente utilização do SLT, os colírios antiglaucomatosos continuam sendo parte fundamental do tratamento. Eles podem ser indicados quando o laser não é a melhor opção, quando há contraindicações ao procedimento ou quando é necessário complementar a redução da pressão intraocular.


Os medicamentos atuam diminuindo a produção do humor aquoso, aumentando sua drenagem ou combinando ambos os mecanismos. Atualmente, apresentam excelente perfil de segurança, sendo os efeitos adversos geralmente leves e limitados aos olhos, como vermelhidão ocular, escurecimento da pele das pálpebras ou aumento do crescimento dos cílios, dependendo da classe utilizada.


A escolha da melhor estratégia terapêutica deve ser individualizada. Para isso, o oftalmologista considera diversos fatores, entre eles:

  • Tipo de glaucoma;

  • Estágio da doença;

  • Pressão intraocular e pressão-alvo;

  • Grau de comprometimento do nervo óptico;

  • Resultados da campimetria computadorizada;

  • Tomografia de Coerência Óptica (OCT);

  • Idade e expectativa de vida do paciente;

  • Presença de outras doenças;

  • Facilidade de adesão ao tratamento.


Mesmo com os avanços do tratamento clínico, alguns pacientes continuam apresentando progressão da doença. Quando isso acontece, a cirurgia passa a ser uma alternativa importante para preservar a visão.


Quando a cirurgia de glaucoma é indicada?


A cirurgia de glaucoma é indicada quando o tratamento clínico, composto por SLT, colírios ou pela associação dessas modalidades, não consegue controlar adequadamente a pressão intraocular ou impedir a progressão da doença.


Entre as principais indicações cirúrgicas estão:

  • Progressão do glaucoma comprovada nos exames de acompanhamento;

  • Pressão intraocular persistentemente acima da meta estabelecida;

  • Intolerância ou efeitos colaterais importantes relacionados aos colírios;

  • Dificuldade para manter o tratamento medicamentoso;

  • Casos avançados com alto risco de perda visual.


O objetivo da cirurgia não é recuperar a visão perdida, mas reduzir a pressão intraocular para níveis seguros, preservando o nervo óptico e diminuindo o risco de novas perdas visuais.


A decisão pela cirurgia é baseada em uma avaliação individualizada, considerando o histórico clínico, os exames oftalmológicos, a velocidade de progressão do glaucoma e as necessidades de cada paciente.


Trabeculectomia: a cirurgia tradicional para glaucoma


A trabeculectomia é considerada a cirurgia clássica para o tratamento do glaucoma e continua sendo uma das técnicas mais eficazes para reduzir a pressão intraocular, especialmente em pacientes com doença avançada ou de difícil controle.


O procedimento consiste na criação de uma nova via de drenagem para o humor aquoso. Durante a cirurgia, o oftalmologista confecciona uma pequena abertura na região da malha trabecular, permitindo que o líquido do interior do olho seja drenado para um espaço localizado sob a conjuntiva, formando uma pequena bolha filtrante, conhecida como ampola de filtração.


Ao criar essa nova rota de escoamento, a cirurgia reduz a pressão intraocular e diminui a sobrecarga sobre o nervo óptico.


A trabeculectomia apresenta excelentes resultados no controle do glaucoma, porém é um procedimento mais invasivo e exige acompanhamento rigoroso no pós-operatório. Por esse motivo, costuma ser indicada principalmente para pacientes com glaucoma moderado ou avançado, ou quando outras formas de tratamento não conseguiram controlar adequadamente a doença.


Embora seja considerada o padrão de referência para muitos casos, a trabeculectomia pode estar associada a complicações como hipotonia ocular, cicatrização excessiva da ampola filtrante, infecções, alterações da câmara anterior e necessidade de novas intervenções. Dessa forma, a indicação deve sempre ser individualizada.


Cirurgia minimamente invasiva do glaucoma (MIGS)


Nas últimas décadas, o tratamento cirúrgico do glaucoma evoluiu significativamente com o desenvolvimento das chamadas MIGS (Minimally Invasive Glaucoma Surgery), ou cirurgias minimamente invasivas para glaucoma.


Esses procedimentos foram desenvolvidos com o objetivo de reduzir a pressão intraocular de forma eficaz, utilizando técnicas menos traumáticas e oferecendo um perfil de segurança superior quando comparados às cirurgias filtrantes tradicionais.


As MIGS utilizam pequenas incisões e dispositivos de alta tecnologia que aumentam ou criam novas vias de drenagem do humor aquoso, preservando ao máximo a anatomia ocular.


Entre as principais vantagens dessas técnicas estão:

  • Menor trauma cirúrgico;

  • Tempo cirúrgico reduzido;

  • Recuperação mais rápida;

  • Menor risco de complicações intra e pós-operatórias;

  • Menor inflamação;

  • Redução da dependência de colírios;

  • Possibilidade de associação com a cirurgia de catarata.


Esses procedimentos são especialmente indicados para pacientes com glaucoma leve ou moderado, embora também possam beneficiar casos mais avançados quando associados a outras técnicas.


É importante destacar que as MIGS não substituem completamente a trabeculectomia. Pacientes com glaucoma muito avançado ou que necessitam de reduções mais intensas da pressão intraocular continuam podendo se beneficiar mais das cirurgias filtrantes convencionais.


A escolha da cirurgia deve ser individualizada


Hoje existem diversas opções cirúrgicas para o tratamento do glaucoma. A escolha entre uma técnica minimamente invasiva e uma cirurgia filtrante convencional depende de uma avaliação criteriosa realizada pelo oftalmologista.


Entre os fatores considerados estão:

  • Tipo de glaucoma;

  • Estágio da doença;

  • Pressão intraocular desejada (pressão-alvo);

  • Grau de lesão do nervo óptico;

  • Idade do paciente;

  • Histórico de cirurgias oculares;

  • Presença de catarata;

  • Capacidade de acompanhamento no pós-operatório;

  • Expectativa de redução da dependência de colírios.


A melhor cirurgia não é necessariamente a mais moderna, mas sim aquela que oferece maior chance de controlar a doença com segurança e preservar a visão de cada paciente.


Riscos da cirurgia de glaucoma


Assim como qualquer procedimento cirúrgico, a cirurgia de glaucoma apresenta riscos e possíveis complicações. Felizmente, com a evolução das técnicas cirúrgicas e dos cuidados pós-operatórios, esses eventos tornaram-se cada vez menos frequentes.


De modo geral, as cirurgias minimamente invasivas (MIGS) apresentam menor índice de complicações quando comparadas às cirurgias filtrantes tradicionais. Ainda assim, é fundamental que o paciente conheça os riscos antes do procedimento.


Entre as possíveis complicações estão:

  • Hipotonia ocular transitória (pressão intraocular muito baixa);

  • Hifema, que é um pequeno sangramento na parte anterior do olho;

  • Inflamação ocular temporária;

  • Elevação da pressão intraocular no pós-operatório;

  • Cicatrização excessiva da área de drenagem;

  • Obstrução ou mau funcionamento do implante;

  • Exposição ou deslocamento do implante;

  • Infecção ocular, situação rara, porém potencialmente grave.


Pacientes que utilizam medicamentos anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários podem apresentar maior risco de pequenos sangramentos durante ou após a cirurgia. Por isso, é fundamental informar ao oftalmologista todos os medicamentos em uso antes do procedimento.


Apesar dessas possíveis complicações, a maioria das cirurgias evolui de forma satisfatória quando realizadas por um cirurgião experiente e acompanhadas adequadamente no período pós-operatório.


Como é o pós-operatório da cirurgia de glaucoma?


A recuperação varia conforme a técnica utilizada, mas, de forma geral, as cirurgias minimamente invasivas proporcionam um retorno mais rápido às atividades do dia a dia quando comparadas às cirurgias filtrantes tradicionais.


Logo após o procedimento, a pressão intraocular costuma apresentar redução significativa. Em muitos casos, os colírios para glaucoma podem ser suspensos imediatamente, embora essa decisão dependa da avaliação do oftalmologista.


Durante o período de recuperação, normalmente são prescritos:

  • Colírios antibióticos;

  • Colírios anti-inflamatórios;

  • Lubrificantes oculares, quando necessário.


Esses medicamentos ajudam a reduzir o risco de infecção, controlar a inflamação e favorecer uma boa cicatrização.


A primeira consulta de retorno geralmente ocorre no dia seguinte à cirurgia. Nas semanas seguintes, novas avaliações são realizadas para monitorar a pressão intraocular, a cicatrização e o funcionamento da cirurgia.


Cuidados após a cirurgia


O sucesso da cirurgia depende não apenas da técnica utilizada, mas também dos cuidados adotados durante a recuperação.


Nas primeiras semanas, é recomendado:

  • Utilizar corretamente todos os colírios prescritos;

  • Evitar esfregar ou pressionar os olhos;

  • Não realizar atividades físicas intensas;

  • Evitar levantar peso excessivo;

  • Não entrar em piscinas, mar ou banheiras até liberação médica;

  • Dormir conforme a orientação do cirurgião, evitando pressão direta sobre o olho operado;

  • Comparecer a todas as consultas de acompanhamento.


Caso ocorram sintomas como dor intensa, piora da visão, secreção abundante ou vermelhidão importante, o paciente deve procurar atendimento oftalmológico imediatamente.


O que é o needling?


Em alguns pacientes, principalmente após cirurgias filtrantes e implante, o processo natural de cicatrização pode reduzir a eficiência da drenagem do humor aquoso.


Quando isso acontece, pode ser indicado um procedimento chamado needling. O needling consiste em liberar delicadamente as aderências cicatriciais ao redor da área de drenagem utilizando uma agulha extremamente fina, permitindo que o humor aquoso volte a escoar adequadamente.


O procedimento é realizado com anestesia local, geralmente no centro cirúrgico ou em ambiente apropriado, dura poucos minutos e costuma apresentar recuperação rápida.


Na maioria dos casos, o needling evita a necessidade de uma nova cirurgia e restabelece o funcionamento adequado da drenagem.


Esse procedimento é mais frequentemente realizado entre quatro e seis meses após a cirurgia, embora possa ser indicado em outros momentos, dependendo da resposta cicatricial de cada paciente.


A cirurgia cura o glaucoma?


Não. É importante compreender que nenhuma cirurgia é capaz de curar o glaucoma ou recuperar a visão já perdida.


O objetivo do tratamento cirúrgico é reduzir a pressão intraocular para retardar ou interromper a progressão da doença, preservando a visão remanescente.


Mesmo após uma cirurgia bem-sucedida, o glaucoma continua sendo uma doença crônica e o paciente deverá manter acompanhamento oftalmológico periódico por toda a vida.


Em alguns casos, pode ser necessário voltar a utilizar colírios ou realizar novos procedimentos ao longo dos anos para manter a pressão intraocular dentro da meta estabelecida.


Quando procurar um especialista?


Pacientes com diagnóstico de glaucoma, histórico familiar da doença, pressão intraocular elevada ou fatores de risco devem realizar acompanhamento periódico com um oftalmologista.


Quando indicado no momento adequado, o tratamento, seja com SLT, colírios, cirurgia minimamente invasiva ou cirurgia filtrante, é capaz de preservar a visão e proporcionar melhor qualidade de vida.


A avaliação especializada é fundamental para definir a estratégia terapêutica mais segura e eficaz para cada paciente, considerando o estágio da doença, a velocidade de progressão e as características individuais de cada caso.

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