Apneia do sono e saúde ocular


Descubra como a apneia do sono pode afetar a saúde dos olhos e sua relação com glaucoma, degeneração macular (DMRI), doenças da retina e outras alterações oculares.
Você sabia que dormir mal pode afetar muito mais do que seu humor e disposição? Cada vez mais estudos mostram que a qualidade do sono também influencia a saúde dos olhos.
A apneia obstrutiva do sono (AOS), um distúrbio caracterizado por interrupções repetidas da respiração durante o sono, já é reconhecida como fator de risco para hipertensão, infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e diabetes. Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar também seus efeitos sobre a visão.
As evidências científicas sugerem que a redução repetida da oxigenação durante o sono pode aumentar o risco de doenças que acometem o nervo óptico, a retina e até mesmo as pálpebras.
Neste artigo, você entenderá como a apneia pode afetar os olhos, quais doenças estão associadas a ela e por que pacientes com apneia devem manter acompanhamento oftalmológico regular.
O que é a apneia obstrutiva do sono?
A apneia obstrutiva do sono ocorre quando a passagem de ar é bloqueada repetidamente durante o sono devido ao fechamento parcial ou completo das vias aéreas superiores.
Cada episódio pode durar alguns segundos e acontecer dezenas ou até centenas de vezes durante uma única noite.
Durante essas pausas respiratórias, o organismo recebe menos oxigênio, obrigando o cérebro a despertar parcialmente para restabelecer a respiração. Muitas vezes, a pessoa nem percebe que isso está acontecendo.
Os sintomas mais comuns são:
Ronco intenso.
Pausas respiratórias observadas por familiares.
Sono agitado.
Sonolência durante o dia.
Dor de cabeça ao acordar.
Dificuldade de concentração.
Cansaço persistente.
Alterações de memória.
Como a apneia pode afetar os olhos?
Os olhos estão entre os órgãos que mais consomem oxigênio no organismo.
A retina e o nervo óptico dependem de uma circulação sanguínea adequada para funcionar corretamente.
Quando a oxigenação diminui repetidamente durante o sono, ocorre uma série de alterações que podem prejudicar essas estruturas.
Entre elas estão:
Estresse oxidativo.
Inflamação crônica.
Alteração da circulação sanguínea ocular.
Lesão dos pequenos vasos da retina.
Disfunção do endotélio vascular.
Aumento da produção de fatores inflamatórios e do VEGF.
Esses mecanismos estão envolvidos em diversas doenças oftalmológicas.
Quais doenças oculares podem estar relacionadas à apneia do sono?
Uma revisão sistemática e metanálise publicada na revista Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology demonstrou que pacientes com apneia apresentam maior frequência de diversas doenças oculares.
Glaucoma
O glaucoma é uma doença que provoca lesão progressiva do nervo óptico e representa uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo.
Embora a pressão intraocular seja o principal fator de risco, hoje sabemos que alterações vasculares também desempenham papel importante.
A redução repetida da oxigenação causada pela apneia pode comprometer a circulação do nervo óptico e aumentar sua vulnerabilidade.
Diversos estudos demonstram que pacientes com apneia apresentam maior prevalência de glaucoma, especialmente nas formas moderadas e graves da doença.
Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI)
A DMRI é uma doença que acomete a mácula, região central da retina responsável pela visão de detalhes.
Ela dificulta atividades como:
Ler.
Dirigir.
Reconhecer rostos.
Utilizar celular.
Costurar.
A retina possui uma das maiores demandas de oxigênio do organismo.
Por isso, pesquisadores passaram a investigar se os episódios repetidos de hipóxia presentes na apneia poderiam favorecer alterações na mácula.
Uma metanálise publicada em 2026, envolvendo mais de 3,5 milhões de participantes, demonstrou que indivíduos com apneia apresentavam risco significativamente maior de desenvolver DMRI.
Embora essa associação ainda esteja sendo estudada, os resultados reforçam a importância do controle da apneia e do acompanhamento oftalmológico.
Neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica
Essa é uma das doenças mais fortemente associadas à apneia.
Ela ocorre quando há diminuição do fluxo sanguíneo para o nervo óptico, levando à perda súbita da visão, geralmente percebida ao acordar.
Por esse motivo, muitos oftalmologistas recomendam investigar apneia em pacientes com neuropatia óptica isquêmica sem outra causa aparente.
Oclusão de veia da retina
A apneia também tem sido relacionada ao aumento do risco de obstrução das veias da retina.
Essa doença provoca perda visual súbita e está associada às alterações vasculares, inflamatórias e metabólicas presentes em pacientes com apneia.
Síndrome da pálpebra flácida (Floppy Eyelid Syndrome)
Essa talvez seja a manifestação ocular mais conhecida da apneia.
Os pacientes apresentam pálpebras excessivamente frouxas, que se viram facilmente durante o sono.
Os sintomas incluem:
Vermelhidão ocular ao acordar.
Ardência.
Lacrimejamento.
Sensação de areia.
Irritação ocular crônica.
Em muitos casos, é justamente o oftalmologista quem levanta a suspeita de apneia após identificar essa alteração.
Ceratocone
Alguns estudos sugerem uma possível associação indireta entre apneia e ceratocone.
Pacientes com apneia apresentam maior frequência de obesidade, alergias, síndrome da pálpebra flácida e hábito de esfregar os olhos, fatores conhecidos por favorecer a progressão do ceratocone.
Essa relação ainda está sendo investigada.
Quem deve procurar um oftalmologista?
Pacientes com apneia do sono devem realizar avaliações oftalmológicas periódicas, principalmente quando apresentam:
Glaucoma.
Histórico familiar de glaucoma.
Degeneração macular.
Diabetes.
Hipertensão arterial.
Perda visual.
Alterações da retina.
Idade acima de 50 anos.
Da mesma forma, pacientes diagnosticados com glaucoma, neuropatia óptica isquêmica ou algumas doenças da retina podem se beneficiar da investigação de distúrbios do sono.
Como é feito o diagnóstico da apneia?
O diagnóstico é realizado por um médico especialista em medicina do sono, pneumologista ou otorrinolaringologista.
O principal exame é a polissonografia, que monitora durante o sono:
Respiração.
Oxigenação do sangue.
Frequência cardíaca.
Atividade cerebral.
Movimentos corporais.
Como é feito o diagnóstico das doenças oculares?
O diagnóstico depende da doença suspeita, mas geralmente inclui:
Exame oftalmológico completo.
Medida da pressão intraocular.
Fundo de olho.
Retinografia.
Tomografia de Coerência Óptica (OCT).
Campimetria visual.
Angio-OCT.
Angiografia fluoresceínica, quando indicada.
Esses exames permitem detectar precocemente alterações da retina e do nervo óptico, muitas vezes antes do aparecimento dos sintomas.
Tratar a apneia protege a visão?
Ainda não existe comprovação científica de que tratar a apneia previna diretamente o glaucoma ou a degeneração macular.
Entretanto, controlar a apneia melhora a oxigenação do organismo, reduz processos inflamatórios e traz benefícios importantes para a saúde cardiovascular e neurológica.
Por isso, seguir corretamente o tratamento recomendado — que pode incluir perda de peso, CPAP, dispositivos intraorais ou cirurgia em casos selecionados — é fundamental para a saúde geral.
Conclusão
A apneia obstrutiva do sono é uma doença sistêmica que pode afetar muito mais do que a qualidade do sono. Evidências científicas mostram sua associação com glaucoma, neuropatia óptica isquêmica, síndrome da pálpebra flácida, oclusões vasculares da retina e, mais recentemente, com a degeneração macular relacionada à idade.
Embora nem todas essas associações representem uma relação direta de causa e efeito, elas reforçam a importância de uma abordagem integrada entre oftalmologistas, pneumologistas, otorrinolaringologistas e especialistas em medicina do sono.
Se você ronca intensamente, apresenta pausas respiratórias durante o sono ou já recebeu diagnóstico de apneia, informe seu oftalmologista durante as consultas. Da mesma forma, pacientes com doenças da retina ou do nervo óptico devem conversar com seu médico sobre a possibilidade de investigação da apneia do sono.
Referências científicas
Bulloch G, et al. Ocular manifestations of obstructive sleep apnea: a systematic review and meta-analysis. Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology. 2024. PMID: 37227479.
Yaldo L, et al. Obstructive sleep apnea and risk of age-related macular degeneration: A systematic review and meta-analysis. American Journal of Ophthalmology. 2026..




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