Esclerite Ocular
- Dra. Alléxya Affonso

- 16 de abr.
- 5 min de leitura

Entenda o que é esclerite, por que o branco do olho fica inflamado, quais as causas, sintomas de alerta e como é feito o tratamento.
Esclerite ocular: inflamação grave no branco do olho que exige atenção
O que é a esclera?
Antes de falar sobre a doença, é importante entender a estrutura que ela afeta. A esclera é a camada externa e protetora do globo ocular, o que popularmente chamamos de “branco do olho”. Formada por fibras de colágeno densamente organizadas, ela envolve e protege as estruturas internas do olho. É composta por três camadas: a episclera (a mais superficial), o estroma e a lâmina fusca (a mais profunda, em contato com a coroide).
Sua composição é semelhante à da córnea, diferindo principalmente na forma como as fibras de colágeno estão dispostas, o que explica por que a esclera é opaca enquanto a córnea é transparente.
O que é esclerite?

A esclerite é a inflamação da esclera e representa uma das condições oculares mais sérias que um oftalmologista pode encontrar. Diferente de outras inflamações oculares mais superficiais, a esclerite compromete toda a espessura da esclera, tornando-a potencialmente ameaçadora para a visão.
Trata-se de uma doença relativamente rara, ocorre em aproximadamente 0,1% dos atendimentos de urgência em oftalmologia, mas que não deve ser subestimada. É mais prevalente em mulheres e tende a se manifestar em faixas etárias mais avançadas do que outras inflamações oculares, como a episclerite.
Tipos de esclerite
A classificação da esclerite é feita de acordo com a região da esclera afetada e as características da inflamação:
Esclerite anterior (90% dos casos)
É a forma mais comum e se divide em três subtipos:
Esclerite difusa anterior: a apresentação mais frequente e de evolução mais favorável. Caracteriza-se por inflamação generalizada da esclera anterior. Com tratamento adequado, o prognóstico costuma ser bom.
Esclerite anterior nodular: manifesta-se com nódulos visíveis na esclera. Requer acompanhamento cuidadoso, pois pode evoluir para a forma necrosante.
Esclerite anterior necrosante: a forma mais grave entre as esclerites anteriores, presente em cerca de 14% dos casos. Causa dor intensa e danos estruturais significativos à esclera. Está frequentemente associada a doenças sistêmicas graves. Divide-se em dois subtipos:
• Com inflamação (escleroceratite): acomete também a córnea e costuma ser bastante dolorosa • Sem inflamação (escleromalacia perfurante): evolução silenciosa e insidiosa, sem dor, mas com progressão lenta e perigosa. É bilateral e quase exclusiva de pacientes com artrite reumatoide avançada, predominantemente mulheres. O diagnóstico só costuma ser feito quando a coroide já se torna visível através da fina camada conjuntiva remanescente
Esclerite posterior
Afeta a porção posterior do globo ocular e é considerada rara e de difícil diagnóstico. Acomete mais mulheres do que homens e pode se apresentar com dor ocular, descolamento de retina, pregas coroideanas e perda de visão. O risco mais crítico desta forma é a progressão rápida para cegueira caso o diagnóstico e o tratamento não sejam feitos de forma oportuna.
Em cerca de um terço dos pacientes, a esclerite posterior coexiste com alguma forma de esclerite anterior.
Esclerite e episclerite: qual a diferença?
Apesar de nomes parecidos, são condições distintas. A diferença está na profundidade da inflamação:
Episclerite: afeta apenas a episclera, a camada mais superficial. Geralmente menos grave, com sintomas mais brandos e resolução mais rápida
Esclerite: compromete toda a espessura da esclera. Condição mais séria, com maior risco de complicações e frequentemente associada a doenças sistêmicas
Diferenciar as duas condições é fundamental, pois o manejo clínico e o prognóstico são bastante diferentes.
Causas da esclerite
Em aproximadamente metade dos casos, a esclerite está associada a alguma doença sistêmica subjacente. Entre as mais frequentemente relacionadas estão:
Artrite reumatoide
Granulomatose de Wegener
Lúpus eritematoso sistêmico
Policondrite recidivante
Espondilite anquilosante
Poliarterite nodosa
Artrite reativa
Gota
Sífilis
Síndrome de Churg-Strauss
Sarcoidose e tuberculose
Linfomas
Outras causas incluem:
Complicações pós-cirúrgicas: a esclerite pode surgir como consequência de determinadas intervenções oculares
Trauma ocular ou corpo estranho: lesões diretas na esclera podem desencadear o processo inflamatório
Infecções: o vírus varicela-zóster e outras infecções locais podem estar na origem de alguns casos
Esclerite fúngica: extremamente rara, mas deve ser considerada quando não há resposta ao tratamento imunossupressor convencional
Outros fatores: hipertensão arterial, infestações parasitárias e outras condições também já foram associadas à doença
Sintomas da esclerite
Os sinais clínicos variam conforme o tipo e o estágio da doença, mas os mais comuns são:
Dor ocular: frequentemente intensa, podendo irradiar para a cabeça e face
Olhos vermelhos: com coloração avermelhada ou violácea característica
Ardência e desconforto ocular persistentes
Redução da acuidade visual (hipovisão) nos casos mais avançados
É importante destacar que, na escleromalacia perfurante, a doença pode progredir de forma completamente assintomática, o que torna o acompanhamento regular ainda mais crucial em pacientes com artrite reumatoide.
Esclerite tem cura?
Sim, a esclerite tem cura, desde que o diagnóstico seja feito de forma correta e o tratamento iniciado sem demora. O prognóstico depende diretamente do tipo de esclerite, da presença de doenças sistêmicas associadas e da velocidade com que o tratamento é instituído.
Nos casos de esclerite não necrosante sem complicações, o prognóstico visual costuma ser favorável. Já a esclerite anterior necrosante com inflamação representa a forma mais grave da doença, frequentemente associada a comprometimento vascular sistêmico e prognóstico visual reservado. A esclerite posterior, se não tratada a tempo, pode evoluir rapidamente para perda severa da visão.
Tratamento da esclerite
O tratamento é individualizado e leva em conta o tipo de esclerite, o grau de evolução e a presença de condições sistêmicas associadas.
Tratamento da doença de base: quando há uma doença sistêmica subjacente, como artrite reumatoide ou lúpus, seu controle adequado é condição essencial para a estabilização do quadro ocular.
Antibióticos sistêmicos: nos casos de esclerite de origem infecciosa, o uso de antibióticos por via oral ou intravenosa é indispensável.
Imunossupressores: administrados de acordo com o tipo e a gravidade da esclerite, visam controlar a resposta inflamatória desregulada.
Monitoramento de complicações: a esclerite pode evoluir com complicações graves, como:
Descolamento de retina
Catarata
Uveíte
Aumento da pressão intraocular (glaucoma)
Isquemia do segmento anterior do olho
Adelgaçamento progressivo da esclera
Cirurgia: em determinados casos, a intervenção cirúrgica torna-se necessária para tratar complicações como catarata avançada ou glaucoma refratário ao tratamento clínico.
Está sentindo dor persistente no olho, vermelhidão intensa ou notou que sua visão piorou recentemente? Esses sinais merecem avaliação urgente. A esclerite é uma condição que, quando tratada precocemente, tem bom prognóstico, mas pode causar danos irreversíveis se negligenciada. Agende sua consulta e proteja sua visão com quem entende.
As informações têm caráter educativo e não substituem a avaliação de um profissional de saúde habilitado.




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