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Manifestações Oculares do HIV

Foto do escritor: Dra. Alléxya Affonso
Dra. Alléxya Affonso
5 de ago.
4 min de leitura
Manifestações Oculares do HIV


Sintomas, Principais Doenças e Como Prevenir a Perda da Visão


O HIV pode causar retinite por citomegalovírus (CMV), retinopatia, uveíte, neuropatia óptica e outras doenças oculares. Saiba quais são os sintomas, fatores de risco, diagnóstico e tratamento.


Manifestações oculares do HIV: como a infecção pode afetar a visão


A infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) pode comprometer praticamente todas as estruturas do olho. Embora o advento da terapia antirretroviral (TARV) tenha reduzido significativamente a incidência de infecções oportunistas e de cegueira relacionada à AIDS, as manifestações oftalmológicas continuam sendo uma importante causa de morbidade, especialmente em pacientes com diagnóstico tardio, baixa adesão ao tratamento ou imunossupressão avançada.


Em alguns casos, as alterações oculares podem ser o primeiro sinal da progressão da doença ou indicar falha na recuperação imunológica. Por isso, a avaliação oftalmológica desempenha papel fundamental no acompanhamento de pessoas vivendo com HIV.


O HIV pode afetar os olhos?


Sim. As manifestações oculares podem ocorrer em qualquer fase da infecção e resultam de diferentes mecanismos:

  • ação direta do HIV sobre os tecidos oculares;

  • infecções oportunistas;

  • doenças inflamatórias relacionadas à recuperação imunológica;

  • tumores associados ao HIV;

  • complicações neurológicas;

  • toxicidade de medicamentos utilizados no tratamento.


Essas alterações variam desde quadros assintomáticos até perda visual grave e permanente.


Quais são os principais sintomas?


Os sintomas dependem da estrutura ocular acometida e podem incluir:

  • visão embaçada;

  • moscas volantes;

  • perda de campo visual;

  • diminuição da visão central;

  • dificuldade para enxergar à noite;

  • dor ocular;

  • vermelhidão;

  • sensibilidade à luz;

  • visão dupla;

  • perda visual súbita.


Alguns pacientes permanecem assintomáticos, reforçando a importância dos exames oftalmológicos periódicos.


Principais manifestações oftalmológicas do HIV


Retinopatia associada ao HIV


A retinopatia pelo HIV é a manifestação ocular mais frequente, podendo ocorrer em até 70% dos pacientes com imunossupressão avançada.


Caracteriza-se por alterações da microcirculação retiniana, incluindo:

  • manchas algodonosas;

  • hemorragias retinianas;

  • microaneurismas;

  • tortuosidade vascular.


Na maioria das vezes é assintomática, mas pode comprometer a visão quando há acometimento macular. Além disso, sua presença indica imunossupressão importante e maior risco de infecções oportunistas.


Retinite por citomegalovírus (CMV)


A retinite por citomegalovírus continua sendo a principal causa de cegueira relacionada à AIDS.


Geralmente ocorre em pacientes com contagem de linfócitos CD4 inferior a 50 células/mm³.


Os principais sintomas são:

  • moscas volantes;

  • perda progressiva da visão;

  • escotomas;

  • redução do campo visual.


Ao exame de fundo de olho observa-se uma retinite necrosante com hemorragias, aspecto clássico conhecido como “pizza” ou “queijo com ketchup”.


Sem tratamento adequado, a doença pode evoluir rapidamente para descolamento de retina e

cegueira permanente.


Toxoplasmose ocular


A reativação do Toxoplasma gondii pode causar retinocoroidite necrosante, frequentemente bilateral em pacientes imunossuprimidos.


As lesões costumam ser extensas e podem comprometer diretamente a mácula ou o nervo óptico, aumentando o risco de perda visual definitiva.


Herpes-zóster oftálmico


O herpes-zóster oftálmico resulta da reativação do vírus varicela-zóster e costuma apresentar evolução mais grave em pessoas vivendo com HIV.


Pode acometer:

  • córnea;

  • conjuntiva;

  • úvea;

  • retina;

  • nervo óptico.


As complicações incluem ceratite neurotrófica, uveíte e glaucoma secundário.


Uveíte


A uveíte pode ocorrer por infecções oportunistas ou durante a recuperação imunológica após o início da terapia antirretroviral, situação conhecida como síndrome inflamatória da reconstituição imune.


Dependendo da intensidade da inflamação, pode causar edema macular, catarata e glaucoma secundário.


Olho seco


A ceratoconjuntivite seca é relativamente frequente em pacientes com HIV devido ao comprometimento das glândulas lacrimais.


Os sintomas incluem:

  • ardor;

  • sensação de areia;

  • vermelhidão;

  • lacrimejamento reflexo;

  • visão oscilante.


Embora geralmente não ameace a visão, pode comprometer significativamente a qualidade de vida.


Neuropatia óptica e complicações neurológicas


O nervo óptico também pode ser afetado pelo próprio HIV, por infecções oportunistas ou por neoplasias do sistema nervoso central.


Os pacientes podem apresentar:

  • redução da acuidade visual;

  • alteração da visão de cores;

  • defeitos de campo visual;

  • perda visual bilateral.


Em casos mais graves, doenças como a leucoencefalopatia multifocal progressiva, causada pela reativação do vírus JC, podem acometer o córtex visual e provocar cegueira cortical.


Tumores oculares associados ao HIV


A imunossupressão também aumenta o risco de neoplasias oculares, entre elas:

  • sarcoma de Kaposi da conjuntiva e das pálpebras;

  • linfoma intraocular;

  • linfoma orbitário.


Esses tumores podem simular uveítes crônicas e exigir investigação especializada.


Como é feito o diagnóstico?


A avaliação oftalmológica deve incluir exame completo do segmento anterior e posterior.


Dependendo da suspeita clínica, podem ser necessários:

  • fundoscopia sob dilatação;

  • retinografia;

  • tomografia de coerência óptica (OCT);

  • angiografia fluoresceínica;

  • ultrassonografia ocular;

  • ressonância magnética, quando há suspeita de acometimento neurológico;

  • exames laboratoriais e testes moleculares para agentes infecciosos.


A contagem de CD4 e a carga viral também são fundamentais para avaliar o risco de infecções oportunistas e orientar a investigação.


Como é o tratamento?


O tratamento depende da causa da manifestação ocular.


Além da otimização da terapia antirretroviral (TARV), podem ser utilizados:

  • antivirais para retinite por CMV;

  • antiparasitários para toxoplasmose ocular;

  • antivirais para herpes-zóster;

  • antibióticos para sífilis;

  • antifúngicos para infecções oportunistas;

  • corticosteroides em situações específicas;

  • cirurgia para descolamento de retina ou catarata;

  • reabilitação visual em pacientes com sequelas permanentes.


O diagnóstico precoce aumenta significativamente as chances de preservação da visão.


Quem deve realizar acompanhamento oftalmológico?


A avaliação oftalmológica é recomendada para todas as pessoas vivendo com HIV, especialmente aquelas que apresentam:

  • contagem de CD4 inferior a 200 células/mm³;

  • diagnóstico recente de AIDS;

  • sintomas visuais;

  • histórico de infecções oportunistas;

  • baixa adesão à terapia antirretroviral.


Pacientes com CD4 abaixo de 50 células/mm³ apresentam risco significativamente maior de desenvolver retinite por CMV e devem ser acompanhados com maior frequência.


Conclusão


As manifestações oftalmológicas do HIV podem acometer desde a superfície ocular até a retina, o nervo óptico e o sistema nervoso central. Embora a terapia antirretroviral tenha reduzido significativamente a incidência das formas mais graves, complicações potencialmente cegantes ainda ocorrem, principalmente em pacientes com imunossupressão avançada ou diagnóstico tardio.


O reconhecimento precoce dos sintomas, associado ao acompanhamento oftalmológico regular e ao controle adequado da infecção pelo HIV, é essencial para prevenir a perda visual e preservar a qualidade de vida.

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